21 casos que nem o Pentágono sabe explicar

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21 casos que nem o Pentágono sabe explicar

O relatório anual do AARO sobre fenômenos anômalos

Existe um tipo de relatório oficial que parece escrito por alguém torcendo, visivelmente, para que ninguém o leia até o fim. O relatório anual de 2024 do AARO — o Escritório de Resolução de Anomalias de Todos os Domínios do Pentágono, sigla que já é, por si só, um pequeno triunfo da linguagem burocrática — não é bem assim. Mas chega perto.

Para entender por que esse relatório existe, vale voltar um pouco. O AARO foi criado oficialmente em 2022, por determinação do Congresso americano dentro da Lei de Autorização de Defesa Nacional, como sucessor de um escritório anterior, mais modesto, chamado Força-Tarefa de Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAPTF), criado em 2020 dentro da Marinha. A motivação para essa escalada institucional — de uma força-tarefa naval discreta para um escritório do Pentágono com mandato sobre "todos os domínios" — foi, em boa parte, um único relatório: o documento preliminar do Diretor de Inteligência Nacional, divulgado em junho de 2021, que revisou 144 incidentes registrados entre 2004 e 2021, principalmente por pilotos militares. Desse total, apenas um foi atribuído com confiança a um objeto convencional — um balão murchando em pleno voo. Os outros 143 ficaram, oficialmente, sem explicação. Foi esse relatório que tirou o assunto das mesas de boteco e colocou na mesa de audiências do Senado, com direito a vídeos de radar tornados públicos e pilotos da Marinha testemunhando sob juramento sobre objetos que, segundo eles, exibiam o que a comunidade de inteligência passaria a chamar de "cinco observáveis": aceleração instantânea, velocidades hipersônicas sem o calor e o estrondo esperados, sustentação que desafia a aerodinâmica convencional, ausência de meios visíveis de propulsão e, o mais intrigante de todos, capacidade de transitar entre o ar e a água sem perda perceptível de desempenho — o chamado comportamento "transmidiático".

757 relatos de Fenômenos Anômalos Não Identificados em 2024

Voltando ao relatório de 2024: entre maio de 2023 e junho de 2024, o AARO recebeu 757 relatos de Fenômenos Anômalos Não Identificados — o termo que substituiu "OVNI" nos documentos oficiais, numa daquelas trocas de vocabulário que parecem cosméticas até você notar que "anômalo" é uma palavra muito mais honesta do que "voador" ou "disco", e que abre espaço, deliberadamente, para categorias que o velho "UFO" nunca cobriu de forma confortável: objetos submersos, objetos transmidiáticos e até fenômenos relatados no espaço. Desses 757, 485 eram de eventos ocorridos dentro do próprio período do relatório; os outros 272 eram casos de 2021 e 2022 que, por algum motivo burocrático, só chegaram à mesa do AARO depois — uma fila de espera que, por si só, já diz algo sobre o volume de papelada que esse tipo de programa gera.

Da pilha inteira, 49 casos foram resolvidos dentro do período — e aqui a lista é tão terrena quanto se poderia esperar: balões de diferentes tipos (meteorológicos, de pesquisa, comerciais), pássaros, e a categoria que mais cresceu proporcionalmente em relação a relatórios anteriores: drones, tanto comerciais quanto não identificados, sobrevoando instalações militares com uma frequência que, por si só, já seria motivo de outro relatório inteiro. Outros 243 foram recomendados para arquivamento, à espera de revisão por pares, também se resolvendo majoritariamente em balões, pássaros, drones, satélites reentrando na atmosfera e aviões convencionais vistos em ângulos ou condições de luz que distorciam sua aparência — o mesmo tipo de explicação óptica que vimos, em outro capítulo desta série, transformar aviões-espião em discos voadores. Se você está contando, são quase 300 casos cuja explicação final foi, essencialmente, "o céu está cheio de coisas, e nem todas elas são extraordinárias".

Os 21 casos classificados como "verdadeiramente anômalos"

E então chegamos ao número que dá título a este capítulo: 21. Vinte e um casos que o próprio AARO classificou como merecedores de análise adicional por parte de parceiros de inteligência e de ciência e tecnologia — e que o relatório descreve, sem rodeios, como "verdadeiramente anômalos". Não "não identificados por falta de tempo". Não "provavelmente um drone, mas não temos certeza". Anômalos. A palavra que um órgão de defesa usa quando "não sabemos" já não é suficiente, e "não devíamos saber, mas aqui estamos" começa a ficar mais preciso.

Vale registrar o que esse número não significa, porque é fácil — e tentador — fazer 21 virar 21 naves espaciais estacionadas em algum hangar do Nevada. Não significa isso. Significa que, depois de aplicar o mesmo crivo que resolveu centenas de outros casos como balões e pássaros, sobrou um resíduo que esse crivo não conseguiu engolir. É estatisticamente parecido com o que aconteceu com o Project Blue Book décadas atrás, lá nos 701 casos do segundo capítulo desta série: por mais peneiras que você use — e o AARO usa peneiras bem mais finas do que as de 1969, com acesso a dados de sensores que Hynek jamais sonhou —, sempre sobra alguma coisa que não passa por nenhum buraco da peneira.

A diferença — e é uma diferença que muda o tom da conversa inteira — é que, desta vez, é o próprio órgão de defesa quem está dizendo isso, em relatório público, sem precisar de um vazamento, um pedido pela Lei de Acesso à Informação ou um piloto aposentado falando ao Congresso sob anonimato. Comparado ao Painel Robertson de 1953, cujo capítulo anterior desta série mostrou a recomendação de literalmente "fazer o problema desaparecer da vista do público", um relatório anual que admite publicamente "temos 21 casos que não sabemos explicar" é, à sua maneira modesta, uma revolução de transparência. Modesta porque, convenhamos, 21 em 757 ainda é menos de 3% — números que, em qualquer outra área da administração pública, mereceriam uma nota de rodapé, não uma manchete. E modesta também porque o AARO, em relatórios anteriores, já havia sido acusado por alguns dos próprios denunciantes que ajudaram a criar o escritório de minimizar casos, reclassificar incidentes e — ironia das ironias — repetir, ainda que de forma mais sofisticada, o mesmo manual de "reduzir os relatos do público" que o Painel Robertson recomendara setenta anos antes.

Os "cinco observáveis": o contrabando científico do capítulo

Vale dedicar um parágrafo aos tais "cinco observáveis", porque eles são, em essência, o contrabando científico deste capítulo. A "aceleração instantânea" relatada por pilotos — um objeto que passa de parado a centenas de quilômetros por hora sem fase de aceleração visível — é, para a aviação convencional, um problema sério: qualquer corpo com massa que mude de velocidade tão rapidamente geraria forças g capazes de destruir a maioria dos materiais conhecidos, e isso sem falar no consumo de energia envolvido. A "ausência de assinatura térmica e sonora" em velocidades hipersônicas contraria décadas de engenharia aeroespacial, na qual velocidade extrema é quase sinônimo de calor extremo — é por isso que ônibus espaciais precisam de escudos térmicos. E o comportamento "transmidiático" — sair voando e entrar na água, ou vice-versa, sem desaceleração visível — esbarra na física mais básica de todas: água é centenas de vezes mais densa que ar, e qualquer objeto que mudasse de meio daquela forma deveria, por todas as leis conhecidas, sofrer um impacto violento. Nenhuma dessas observações, isoladamente, prova a existência de tecnologia exótica — analistas como o pesquisador Mick West já propuseram, para vídeos específicos como o "Gimbal" e o "Go Fast", explicações baseadas em efeitos de paralaxe e na forma como sensores infravermelhos processam objetos distantes contra um fundo em movimento. Mas a soma dos cinco observáveis, relatada de forma consistente por pilotos treinados, com equipamentos calibrados, é o tipo de "resíduo" que nem o ceticismo mais rigoroso consegue zerar completamente — e é exatamente esse resíduo que compõe boa parte dos 21 casos "verdadeiramente anômalos".

França, Chile e o mandato histórico do AARO desde 1945

Outro ponto que o relatório de 2024 deixa entrever, sem destacar, é que os Estados Unidos não estão sozinhos nesse exercício de catalogação. A França mantém, desde 1977, o GEIPAN (Grupo de Estudo e Informação sobre Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados), vinculado à agência espacial francesa, com seu próprio sistema de classificação e seus próprios casos "tipo D" — irredutíveis a explicação convencional. O Chile tem o CEFAA, criado dentro da própria aviação civil, com um histórico de relatórios que incluem vídeos de radar de caças chilenos — assunto, aliás, de outro capítulo desta série. Cada um desses países tem sua própria versão da "pilha de 21 pastas", com proporções semelhantes: uma fração pequena, persistente, de casos que sobrevivem a toda triagem. Quando órgãos de defesa de países diferentes, com metodologias diferentes e nenhum incentivo óbvio para coordenar narrativas entre si, chegam a proporções parecidas de "resíduo inexplicável", isso não prova nada sobre a origem do fenômeno — mas torna a hipótese de "erro sistemático de um único país" um pouco mais difícil de sustentar.

Há também o aspecto histórico do mandato do AARO, que poucas manchetes exploram: o escritório não está encarregado apenas de analisar relatos novos, mas também de revisar registros históricos do governo americano que remontam a 1945 — incluindo, presumivelmente, uma boa parte daquela gaveta de 701 casos do Project Blue Book. Em outras palavras, os mesmos 21 casos "verdadeiramente anômalos" de 2024 convivem, na mesma instituição, com um projeto paralelo de reexaminar mistérios de setenta anos atrás à luz de tecnologia de análise de imagem, modelagem atmosférica e bancos de dados que simplesmente não existiam quando aqueles casos foram arquivados pela primeira vez. Se algum dos 701 vier a ser resolvido nessa repescagem, é bem possível que a notícia caiba em duas linhas de um relatório anual — exatamente como os 21 de hoje.

Mas é justamente esse tipo de número pequeno, oficial e anunciado sem drama que costuma ser mais interessante do que qualquer vídeo tremido de luz no céu. Porque ele não pede para você acreditar em nada. Ele não vem com música de suspense, nem com a voz grave de narrador de documentário. Ele só deixa, sobre a mesa, uma pilha de 21 pastas que ninguém — nem quem tem acesso a todos os outros segredos do país, nem quem passou décadas tentando provar ou desmentir cada um deles — sabe ainda o que fazer. E é exatamente nessa pilha, pequena, seca e burocrática, que mora o tipo de mistério que sobrevive a qualquer ceticismo: não porque seja espetacular, mas porque, apesar de todo o esforço, ele simplesmente se recusa a desaparecer da planilha.

Um número que muda a cada relatório, mas nunca chega a zero

Por fim, vale lembrar que esses números não são estáticos — e essa talvez seja a parte mais honesta de todo o exercício. O relatório anterior, cobrindo um período parcialmente diferente, havia trazido proporções um pouco distintas de casos resolvidos e não resolvidos, e é razoável esperar que o próximo relatório, com novos meses de coleta e novos avanços em sensores, traga um número 21 diferente — para cima ou para baixo. Alguns desses 21 podem, com o tempo, ganhar explicação e migrar para a pilha dos balões e drones. Outros, novos, podem entrar no lugar. O que dificilmente vai mudar é a existência da própria categoria: enquanto houver céu, sensores e gente olhando para cima, sempre vai sobrar um número — pequeno, mas obstinado — que nenhuma peneira consegue capturar.

Fontes


Fontes: "Fiscal Year 2024 Consolidated Annual Report on Unidentified Anomalous Phenomena" (Departamento de Defesa dos EUA / AARO, novembro de 2024) e relatório preliminar do Office of the Director of National Intelligence sobre UAP (junho de 2021).