701 mistérios e a gaveta onde ninguém quis guardá-los

Arquivo aberto

701 mistérios e a gaveta onde ninguém quis guardá-los

Toda burocracia tem uma gaveta de "casos pendentes". A diferença é que a maioria delas guarda formulários de reembolso atrasados, não relatórios de objetos que driblaram caças a jato sobre o Novo México. Entre 1947 e 1969, a Força Aérea dos Estados Unidos manteve uma gaveta dessas com nome próprio — Project Blue Book — e, quando finalmente a fechou, havia ali 12.618 relatos de avistamentos catalogados. A boa notícia, se você gosta de números arredondados, é que 11.917 deles ganharam explicação convencional. A notícia que sobrou, e que ninguém conseguiu encaixar em lugar nenhum, foram 701 casos classificados, até hoje, simplesmente como "não identificados".

Os 701 casos "não identificados" do Project Blue Book

Setecentos e um. Não é um número escolhido para impressionar — é o resíduo, o que restou depois que a Força Aérea passou vinte e dois anos eliminando balões meteorológicos, aviões mal vistos, planetas confundidos com luzes, satélites, meteoros, reflexos de lanterna em para-brisa, e — como o próximo capítulo deste arquivo vai mostrar com detalhes — uma quantidade nada desprezível de aviões-espiões que a própria CIA não podia admitir que existiam. Tirando tudo isso, sobrou uma pilha de relatos que, em mais de duas décadas de trabalho oficial, ninguém conseguiu encaixar em "convencional".

De Project Sign a Project Grudge: a origem do Blue Book

Para entender o tamanho da gaveta, é preciso lembrar que o Blue Book não foi o primeiro projeto do gênero — foi o terceiro, e o mais longevo de uma trinca que começou em 1948 com o Project Sign. O Sign nasceu direto da onda de avistamentos de 1947 (o ano de Roswell e do piloto Kenneth Arnold, que cunhou involuntariamente a expressão "flying saucer" ao descrever objetos que se moviam "como um pires saltando na água"). Em 1949, o Sign foi reorganizado e renomeado Project Grudge — nome que, décadas depois, analistas adorariam citar como prova de que a Força Aérea já tinha decidido, desde o início, tratar o assunto com certo desprezo. Em 1952, em meio à onda de avistamentos que incluiu o "Washington flap" do capítulo anterior desta série, o programa foi reorganizado de novo e ganhou o nome que ficaria famoso: Blue Book, em homenagem aos pequenos cadernos azuis usados em provas universitárias — uma referência ao tipo de pergunta-dissertativa que o programa pretendia, supostamente, responder.

O Project Blue Book não nasceu como exercício de mistério cósmico. Nasceu como tantos programas da Guerra Fria nascem: por preocupação militar prática. Será que esses objetos eram aviões soviéticos disfarçados? Armas experimentais? Erros de instrumento que comprometiam a defesa aérea do país inteiro? A motivação era estratégica, não espiritual — o que talvez explique por que o programa terminou de um jeito tão burocrático quanto começou: não com uma revelação, mas com um relatório universitário e uma assinatura.

Dentro da gaveta: Lonnie Zamora, Levelland e as fotos de McMinnville

Vale a pena abrir essa gaveta um pouco mais, porque dentro dos 701 "não identificados" não há só luzes vagas e manchas de filme granulado.

Casos emblemáticos entre os "não identificados"

Há casos como o de Lonnie Zamora, policial de Socorro, Novo México, que em abril de 1964 relatou ter visto um objeto oval, branco, apoiado sobre quatro pernas, com duas figuras pequenas ao lado — e encontrou, no local, marcas de pouso e vegetação queimada que investigadores da Força Aérea documentaram, fotografaram e nunca explicaram de forma satisfatória. Há o caso Levelland, no Texas, em 1957, quando mais de uma dezena de testemunhas independentes — incluindo policiais — relataram que os motores de seus carros morriam e os faróis se apagavam na presença de um objeto luminoso, e voltavam a funcionar normalmente quando ele se afastava. E há as famosas fotografias de McMinnville, no Oregon, tiradas por um casal de fazendeiros em 1950, que até hoje resistem a análises definitivas de autenticidade — nem totalmente desmentidas, nem totalmente confirmadas, o purgatório perfeito para uma fotografia antiga.

O sistema de classificação do Blue Book, aliás, merece o contrabando técnico do dia. Cada caso era avaliado e recebia uma de três etiquetas: "identificado" (quando havia explicação convencional satisfatória), "insuficiente para avaliação" (quando faltavam dados — testemunha não localizada, sem registro de radar, etc.) e "não identificado" (quando havia dados suficientes, mas nenhuma explicação convencional se encaixava). É essa terceira categoria, a mais exigente das três, que produziu os 701. Em outras palavras: não são 701 casos "sem informação". São 701 casos com informação — às vezes muita informação, com radar, fotografia e múltiplas testemunhas — que simplesmente não bateram com nenhuma caixinha disponível.

J. Allen Hynek e o Relatório Condon: o fim do Project Blue Book

Um nome inevitável nessa história é o do astrônomo J. Allen Hynek, contratado como consultor científico do programa desde o início e que passou duas décadas tentando justamente isso: encaixar avistamentos em caixinhas convencionais. Hynek começou como cético confesso — boa parte de sua função era explicar avistamentos como estrelas, planetas e meteoros, o que ele fazia com competência e, ocasionalmente, certa impaciência. Mas o acúmulo de casos como Socorro e Levelland foi, com o tempo, deslocando sua posição pública. Foi Hynek quem, já fora do Blue Book, criaria o sistema de "Encontros Imediatos" (Close Encounters, de primeiro, segundo e terceiro grau) que o cinema tornaria famoso — uma tentativa de trazer rigor classificatório para um campo que, segundo ele, a Força Aérea havia tratado com rigor insuficiente.

Em 1969, depois de um estudo de dois anos encomendado à Universidade do Colorado — o chamado Relatório Condon, sob a direção do físico Edward Condon —, a conclusão oficial foi que nenhum dos avistamentos analisados representava ameaça à segurança nacional, nenhum apresentava evidência definitiva de tecnologia desconhecida pela humanidade, e nenhum havia sido comprovadamente de origem extraterrestre. Com base nisso, o Project Blue Book foi encerrado em 17 de dezembro de 1969. Aviso dado, gaveta trancada, luzes apagadas.

O que poucas retrospectivas mencionam é que o Relatório Condon nasceu sob suspeita antes mesmo de terminar. Um memorando interno, escrito por um dos administradores do projeto antes que o estudo sequer começasse, descrevia o objetivo da pesquisa em termos que vazaram para a imprensa e causaram escândalo: o documento sugeria que o estudo deveria ser conduzido de forma a permitir que a Força Aérea se livrasse do assunto "sem dar a impressão de tê-lo feito de propósito" — e que, estatisticamente, era de se esperar que quase todos os casos pudessem ser explicados de forma convencional. Dois pesquisadores da equipe, David Saunders e Norman Levine, foram demitidos após o vazamento, alegando que a conclusão já estava escrita antes da pesquisa de fato acontecer. O físico James McDonald, da Universidade do Arizona, foi um dos críticos mais vocais, argumentando publicamente que vários dos 701 casos do próprio Blue Book mereciam investigação muito mais séria do que receberam — opinião que ele defenderia, com obstinação crescente, até o fim da década seguinte.

A engenharia das frases oficiais e o arquivo desclassificado

Note a engenharia cuidadosa das três frases que resumem o Relatório Condon. "Nenhuma ameaça à segurança nacional" não é o mesmo que "nada estranho aconteceu". "Nenhuma evidência definitiva de tecnologia desconhecida" não é o mesmo que "tudo foi identificado". E "não comprovadamente extraterrestre" deixa, tecnicamente, qualquer outra origem em aberto — inclusive a mais provável de todas, que é simplesmente "não sabemos". O relatório não disse que os 701 casos foram resolvidos. Disse que resolvê-los não era prioridade — o que é uma frase completamente diferente, vestida com a roupa da primeira.

E aqui está o detalhe que poucas pessoas comentam, e que vale guardar para o resto desta série: essa gaveta não foi trancada para sempre num porão secreto, como a imaginação popular adora sugerir. Desde 1976, os registros desclassificados — com algumas partes ainda tarjadas, é verdade — do Project Blue Book estão guardados no Arquivo Nacional dos Estados Unidos, em Washington, em rolos de microfilme catalogados e disponíveis para qualquer pessoa disposta a enfrentar formulários datilografados e a paciência de um bibliotecário. Voltaremos a esse arquivo especificamente em outro capítulo desta série, porque ele guarda uma ironia deliciosa: o "segredo" está, há quase cinquenta anos, ao alcance de qualquer um com tempo livre e um cartão de pesquisador.

O debate sobre o número 701 e os ecos do UAP e do AARO

Vale notar também que o próprio número 701 é, ele mesmo, motivo de debate — o que talvez seja apropriado para um arquivo cujo tema é justamente "o que não conseguimos identificar". Pesquisadores independentes ligados a organizações como o NICAP (Comitê Nacional de Investigações sobre Fenômenos Aéreos) e, mais tarde, o CUFOS (Centro de Estudos de OVNIs, fundado pelo próprio Hynek após sua saída do Blue Book), argumentaram por décadas que a proporção real de casos genuinamente inexplicáveis era maior do que os 5,5% oficiais — não porque a Força Aérea estivesse necessariamente escondendo discos voadores numa base secreta, mas porque, segundo essa crítica, muitos casos "identificados" haviam sido encaixados em explicações convencionais com um rigor estatístico bem mais frouxo do que os 701 que sobraram. Se isso é verdade, a gaveta seria ainda maior do que o rótulo oficial sugere — só que com uma fechadura mais bem escondida, feita não de sigilo, mas de arredondamento estatístico.

Essa discussão ganhou um eco curioso décadas depois, quando o Pentágono, sob pressão do Congresso americano, divulgou em 2021 um relatório preliminar sobre o que hoje se chama de UAP (Unidentified Aerial Phenomena, o sucessor terminológico de "UFO", trocado em parte para se afastar do peso cultural da sigla antiga). Daqueles 144 incidentes revisados pelo escritório de inteligência naval entre 2004 e 2021, apenas um foi atribuído com confiança a um objeto convencional — um balão murchando em pleno voo. Os outros 143 permaneceram, em essência, na mesma categoria que os 701 do Blue Book: dados suficientes, sem explicação suficiente. A proporção, separada por mais de cinquenta anos e uma tecnologia de sensores completamente diferente, é desconfortavelmente parecida.

Mais recentemente, o tema voltou à pauta oficial com a criação, em 2022, do AARO (All-domain Anomaly Resolution Office) — o sucessor espiritual, várias gerações depois, do Blue Book —, que entre suas tarefas inclui revisar registros históricos, incluindo justamente esses 701 casos remanescentes, à luz de tecnologia de análise que Hynek jamais teria sonhado. Até agora, a maior parte do trabalho tem sido reclassificação e digitalização — não exatamente um filme de ação, mas exatamente o tipo de trabalho de gaveta que esta série inteira celebra.

O que o resíduo de 701 casos diz sobre nós

Os 701 casos não resolvidos não são, sozinhos, prova de nada além do óbvio: que descrever com precisão algo visto por poucos segundos, à distância, sob estresse, é uma das tarefas mais difíceis que existem — e que, mesmo assim, depois de filtrar tudo o que pode ser filtrado, sobra um resíduo que resiste à filtragem. O que você faz com esse resíduo — se trata como mistério cósmico, como falha de metodologia, ou como as duas coisas ao mesmo tempo, convivendo desconfortavelmente na mesma gaveta — diz menos sobre o céu do que sobre você.

Fontes


Fontes: registros do Project Blue Book e do Relatório Condon (Universidade do Colorado, 1968-69), arquivos do National Archives, biografia e escritos de J. Allen Hynek, e documentação pública sobre a criação do AARO (2022), conforme reproduzido pela Britannica e por veículos especializados em história da aviação.