O Tic Tac que não era bala

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O Tic Tac que não era bala

O encontro do USS Nimitz com o "Tic Tac" em 2004

Existem objetos voadores não identificados, e existem objetos voadores não identificados com nome de bala de hortelã. Em 14 de novembro de 2004, ao largo da costa do sul da Califórnia, o Grupo de Ataque do porta-aviões USS Nimitz ganhou um desses últimos — e, mais de duas décadas depois, ele continua sendo, talvez, o caso mais discutido de toda a história recente da ufologia. Não por ser o mais espetacular. Mas por ser o mais documentado, por gente cuja profissão é, justamente, não inventar coisas no ar — e cuja reputação profissional dependia, até aquele dia, de exatamente o oposto de "vi um disco voador".

O radar Aegis do USS Princeton e os "fast movers"

A história começa cerca de duas semanas antes do encontro principal, quando o radar avançado do USS Princeton — um cruzador de classe Ticonderoga equipado com o sistema Aegis, o tipo de tecnologia que custa mais do que cidades pequenas e que normalmente é usado para rastrear míssseis inimigos a centenas de quilômetros — passou a registrar o que os operadores chamaram de "múltiplos veículos aéreos anômalos" numa área designada para treinamento, ao sul de San Diego. A descrição técnica do que esses radares captaram é, por si só, de tirar o fôlego: objetos descendo de cerca de 24 mil metros de altitude (mais alto que a maioria dos aviões comerciais voa) até o nível do mar em poucos segundos, permanecendo praticamente estacionários por um tempo, e depois disparando de volta para cima. Para colocar em perspectiva: um caça militar de última geração levaria minutos — não segundos — para uma manobra dessas, e provavelmente não sobreviveria a ela. Os operadores do Princeton chamaram esses contatos de "fast movers" e, durante os dias seguintes, eles apareceram repetidamente, o suficiente para que o comando decidisse investigar pessoalmente.

Os pilotos Fravor, Slaight, Dietrich e Underwood entram em ação

No dia 14, dois caças F/A-18F Super Hornet foram destacados da força-tarefa: um pilotado pelo comandante David Fravor, com o tenente-comandante Jim Slaight; outro pela tenente-comandante Alex Dietrich, com o tenente Chad Underwood — nomes que, mais de uma década depois, depuseram publicamente, sob seus próprios nomes, sem anonimato, ao Congresso e à imprensa americana, um detalhe que por si só diferencia este caso de praticamente qualquer outro nesta série. O que encontraram, segundo seus relatos, foi um objeto branco, liso, oblongo, sem asas, sem motores visíveis, sem qualquer rastro de exaustão ou calor perceptível ao olho, com cerca de doze a quinze metros de comprimento — comparável em tamanho a um caça, mas sem absolutamente nenhuma das estruturas que um caça precisa ter para voar. O formato, segundo a comparação que pegou e nunca mais saiu, era o de um Tic Tac.

Fravor descreveu o objeto "espelhando" os movimentos do seu caça — virando quando ele virava, como se respondesse à sua presença, e não apenas voando em linha reta. "Ele sabia que estávamos lá", disse Fravor em depoimentos posteriores. Mais intrigante ainda: abaixo do objeto, na superfície do mar, havia uma área de água agitada, branca, num círculo de talvez cinquenta a cem metros de diâmetro — como se algo estivesse perturbando a água por baixo, ou como se o objeto estivesse projetando algum tipo de efeito sobre a superfície, num mar que, segundo os pilotos, estava calmo ao redor. Quando Fravor tentou se aproximar para interceptá-lo, o Tic Tac simplesmente acelerou e desapareceu da vista. Detectado de novo pelo radar do Princeton, segundo o relato, a quase cem quilômetros de distância, menos de um minuto depois. Façam as contas da velocidade implícita nisso, se tiverem estômago — estamos falando de algo na faixa de várias vezes a velocidade do som, sustentada por segundos, sem qualquer assinatura sonora ou térmica condizente.

A filmagem FLIR1 e a revelação do programa AATIP em 2017

Da câmera infravermelho do caça ao New York Times

Depois que Fravor e Slaight retornaram ao porta-aviões, outra aeronave — pilotada por Chad Underwood — foi lançada para a mesma área e capturou, com a câmera FLIR (infravermelho de longo alcance) do caça, a filmagem que se tornaria pública anos mais tarde sob o nome "FLIR1". É essa filmagem — granulada, em preto e branco, mostrando um objeto oblongo girando suavemente enquanto o sensor tenta, sem muito sucesso, travar o foco — que circularia o mundo a partir de dezembro de 2017, quando o New York Times publicou uma reportagem que revelou, pela primeira vez de forma oficial, a existência de um programa do Pentágono chamado AATIP (Programa Avançado de Identificação de Ameaça Aeroespacial), administrado por um analista de inteligência chamado Luis Elizondo, que havia deixado o governo meses antes alegando frustração com a falta de seriedade dada ao tema dentro das próprias Forças Armadas.

Os vídeos "Gimbal" e "Go Fast" e as duas versões em disputa

Outros encontros do USS Theodore Roosevelt em 2015

O caso Nimitz não veio sozinho. A mesma reportagem de 2017 trouxe à luz outros dois vídeos — "Gimbal" e "Go Fast" — gravados em 2015 por pilotos do USS Theodore Roosevelt, também ao largo da costa leste americana. O "Go Fast" mostra um pequeno objeto sobrevoando a superfície do oceano a uma velocidade que, na filmagem, parece absurda; análises posteriores feitas por pesquisadores independentes, notadamente o analista Mick West, sugeriram que o efeito de velocidade poderia ser, em boa parte, uma ilusão de paralaxe — o objeto estaria, na verdade, muito mais distante e mais alto do que o sensor sugere, voando numa velocidade bem mais modesta, com o ângulo da câmera criando a impressão de uma "rasante" dramática sobre a água. É um argumento tecnicamente sólido, e o próprio Pentágono, em relatórios posteriores, reconheceu esse tipo de explicação para parte dos casos. Mas — e este é o ponto que distingue o caso Nimitz dos outros dois — o "Go Fast" e o "Gimbal" tiveram apenas registro de sensor, sem o conjunto completo de radar de superfície, radar aéreo, percepção visual direta de múltiplos pilotos e perturbação na água que caracteriza o encontro de 2004.

Radar com defeito ou nave alienígena?

Aqui está o ponto em que vale a pena frear o entusiasmo, dos dois lados — porque esse é, no fundo, o tema de toda esta série. Para o time "é claramente uma nave alienígena": radares falham, sofrem interferência atmosférica e produzem "fantasmas" — alvos que parecem reais mas não são — com mais frequência do que qualquer thriller de Hollywood admite, especialmente em condições de inversão térmica sobre o oceano, como vimos no primeiro capítulo desta série a propósito de Washington em 1952. Pilotos sob estresse, em alta velocidade, com referências visuais limitadas sobre uma superfície uniforme como o mar, também não são sensores infalíveis — por mais experientes que sejam, e a literatura de aviação está cheia de casos de objetos "impossíveis" que acabaram sendo balões a distâncias mal calculadas, reflexos na própria cúpula da cabine, ou efeitos da lente do sensor infravermelho, que tende a "alongar" e distorcer objetos pequenos e distantes.

Para o time "é só erro de instrumento, próximo capítulo": esse argumento explica bem casos isolados, e provavelmente explica o "Go Fast" de 2015. Explica muito pior quando há múltiplas fontes independentes — radar de superfície do Princeton ao longo de duas semanas, radar do próprio caça de Fravor, percepção visual direta de dois pilotos em duas aeronaves diferentes, perturbação visível na superfície do mar e, por fim, uma câmera de infravermelho — convergindo, no mesmo dia, sobre o mesmo objeto, com comportamento consistente entre todas elas. Não é impossível que todas essas fontes tenham errado de forma coordenada, na mesma direção, ao mesmo tempo. É só, estatisticamente, bem mais incômodo de explicar do que um radar isolado ou uma filmagem solitária.

O estudo de Kevin Knuth sobre a física das acelerações relatadas

Vale o contrabando científico do dia: em 2019, um grupo de físicos liderado por Kevin Knuth publicou, numa revista revisada por pares, um estudo que tentou estimar, a partir apenas dos dados de movimento relatados — sem assumir nada sobre a natureza do objeto —, que tipo de acelerações e velocidades seriam necessárias para reproduzir o comportamento descrito. As conclusões, na linguagem comedida típica de papers científicos, apontaram para acelerações da ordem de centenas de "g" — força gravitacional muitas vezes superior ao que um piloto humano sobrevive, e muito além do que qualquer material aeroespacial conhecido suporta sem se desintegrar. O estudo não afirma "logo, era um ET". Ele afirma algo mais modesto e, de certa forma, mais perturbador: se os dados de movimento relatados estiverem corretos, então o objeto não pode ser explicado por nenhuma tecnologia de propulsão conhecida — humana ou, até onde sabemos, qualquer outra.

A Bigelow Aerospace e a conexão com o AAWSAP

Há ainda um fio dessa história que poucas reportagens conectam direito: o programa que deu origem ao AATIP — e que, na prática, foi quem primeiro reuniu e analisou os dados do caso Nimitz em profundidade — chamava-se AAWSAP (Programa Avançado de Aplicação de Armas Aeroespaciais), financiado pela Agência de Inteligência de Defesa e operado, na prática, por uma empresa privada: a Bigelow Aerospace Advanced Space Studies, ligada ao magnata dos hotéis espaciais Robert Bigelow — um homem cuja paixão declarada por OVNIs e fenômenos paranormais é, há décadas, motivo de piada e de seriedade em doses iguais dentro da comunidade aeroespacial americana. Em outras palavras: o caso do porta-aviões mais avançado da Marinha americana, investigado por pilotos de elite, acabou sendo analisado, num primeiro momento, por uma equipe financiada por um bilionário convencido de que extraterrestres já visitam regularmente fazendas no Utah. A combinação é estranha o suficiente para soar como piada — e real o suficiente para constar em relatórios oficiais do governo.

A confirmação oficial do Pentágono em 2020 e o que ainda falta explicar

Em abril de 2020, o próprio Pentágono publicou oficialmente os três vídeos — Nimitz, Gimbal e Go Fast — confirmando sua autenticidade e que retratavam, de fato, "fenômenos aéreos não identificados" não resolvidos, encerrando de vez qualquer debate sobre se as filmagens eram reais ou fabricadas. A pergunta que restou — a única que realmente importa — nunca foi "essas imagens existem?". Sempre foi "o que, exatamente, elas mostram?". E essa pergunta, vinte anos depois do encontro original, segue exatamente onde estava: numa pasta, com o rótulo "anômalo", esperando o próximo relatório anual.

O caso Nimitz não prova naves alienígenas, e ninguém com credibilidade séria afirma que prova. Mas ele também não se resolveu — nem em 2004, nem em 2017 quando ressurgiu na imprensa via AATIP, nem em 2021 com o relatório do Diretor de Inteligência Nacional, nem nos relatórios do AARO que vieram depois e que, como vimos no capítulo anterior, ainda mantêm uma categoria de "21 casos verdadeiramente anômalos" onde casos deste perfil se encaixariam perfeitamente. Ele simplesmente se tornou o padrão-ouro de "caso bem documentado e ainda assim sem explicação" — o que, nesta categoria de história, é praticamente um troféu, e talvez o único tipo de troféu que este arquivo inteiro está realmente interessado em distribuir.

Fontes


Fontes: depoimentos públicos de David Fravor e Alex Dietrich ao Congresso dos EUA, reportagem do New York Times de dezembro de 2017 sobre o AATIP, reportagens da CBS News e History.com, e o estudo "Estimating Flight Characteristics of Anomalous Unidentified Aerial Vehicles" (Knuth et al., publicado e indexado no PMC/NIH).