PURSUE: o cofre que prometeram abrir (de novo)

Arquivo aberto

PURSUE: o cofre que prometeram abrir (de novo)

O que é o programa PURSUE e quem está por trás dele

Toda geração tem o seu "vamos abrir os arquivos secretos sobre OVNIs". Os pais viram o Project Blue Book ser encerrado em 1969 com a promessa de que não havia nada para ver. Os filhos viram, em 2017, vídeos do Pentágono confirmando que a Marinha americana realmente havia gravado o que ficou conhecido como "Tic Tac" — assunto do capítulo anterior desta série. E agora, em 2026, chegou a vez de um nome que parece ter saído de roteiro de filme de ação, mas que é, de fato, real: PURSUE.

A sigla — Sistema Presidencial de Desvelamento e Relatórios sobre Encontros com UAP (Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters) — nasceu de uma diretiva presidencial assinada em fevereiro de 2026, instruindo agências federais a identificar, revisar e liberar registros relacionados a vida extraterrestre e fenômenos anômalos não identificados. O detalhe que mais chama atenção é a lista de quem está sentado nessa mesa: o programa é coordenado entre a Casa Branca, o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional, o Departamento de Energia, o AARO — o mesmo escritório do Pentágono que vimos dois capítulos atrás catalogando seus "21 casos verdadeiramente anômalos" —, a NASA, o FBI e partes de outras agências de inteligência. Quando seis ou sete órgãos que normalmente nem compartilham impressora concordam em trabalhar juntos num mesmo programa, alguma coisa mudou — seja na política, seja na paciência de quem está cobrando respostas há oitenta anos.

As três tranches de documentos liberados em 2026

Tranche 1: mais de 160 documentos e oito décadas de incidentes

Em 8 de maio de 2026, o primeiro lote — a "Tranche 1" — foi disponibilizado ao público: mais de 160 documentos, cobrindo o que a própria divulgação descreveu como mais de 400 incidentes ao longo de oito décadas, vindos de múltiplas fontes — registros do Pentágono, cabos do Departamento de Estado, documentos do FBI, transcrições da NASA de missões tripuladas, e material de vídeo de sensores militares. O conjunto cobre um período que vai de meados da década de 1940 até registros recentes, incluindo relatórios, fotografias, vídeos, depoimentos de testemunhas e transcrições de áudio — entre elas, segundo a divulgação oficial, depoimentos de astronautas, assunto ao qual este arquivo vai voltar com calma em outro capítulo.

Tranche 2: os áudios da NASA, Gordon Cooper e a Apollo 16

Duas semanas depois, em 22 de maio, veio a "Tranche 2": 64 arquivos, com forte foco em material de vídeo — 51 gravações de infravermelho e sensores de plataformas militares — além de seis documentos em PDF e, pela primeira vez sob o programa PURSUE, sete gravações de áudio de missões da NASA, datadas de 1969. Entre esse material está um trecho de entrevista de 1962 em que o jornalista Walter Cronkite pergunta ao astronauta Gordon Cooper sobre sua opinião pessoal a respeito de OVNIs — uma pergunta que, vinda de quem vinha, carrega seu próprio peso histórico. Também consta mais de duas horas de áudio de um debriefing da missão Apollo 16, gravado em 1972, no qual, em determinado momento, um dos integrantes da tripulação faz um comentário informal sobre uma "base alienígena" — frase que, fora de contexto, é exatamente o tipo de manchete que se escreve sozinha, e que, dentro de contexto, pode significar absolutamente qualquer coisa, de uma piada de cabine a uma observação real registrada sem cerimônia.

Tranche 3: os orbes vermelhos, a "batata" do Colorado e o disco de Harare

E então, ontem — 12 de junho de 2026, um dia antes deste texto ser escrito —, veio a "Tranche 3": mais de 70 arquivos, incluindo seis vídeos, com um tema que se repete de forma notável: relatos de "orbes" luminosos, por vezes vermelhos, vistos por civis no nordeste dos Estados Unidos. Entre os documentos está um relatório do FBI de 2024 descrevendo um ex-oficial de inteligência do Exército americano e quatro integrantes de sua unidade observando, sobre as Montanhas Cheyenne, no Colorado, um objeto com "bordas distintas" e formato — a descrição não poupa o leitor — de batata. Há também um relatório da CIA de julho de 2008 sobre um avistamento no Aeroporto Internacional de Harare, no Zimbábue: um objeto em forma de disco, com um centro "vazado" e uma série de luzes rotativas na parte inferior da fuselagem — uma descrição que, é justo dizer, poderia ter saído de qualquer ilustração de capa de revista de ufologia dos anos 1970, só que carimbada como documento de inteligência real. O secretário de Defesa Pete Hegseth declarou, ao anunciar o lote: "Esses arquivos, escondidos sob classificações, alimentaram especulação por muito tempo — e é hora de o povo americano vê-los por si mesmo."

De setenta anos de sigilo a um site aberto em war.gov/UFO

Pare e compare isso com o Regulamento da Força Aérea 200-2, de 1953, que vimos páginas atrás: um documento que institucionalizou o sigilo em nível de base, proibindo qualquer divulgação de casos não resolvidos, e que vigorou por dezesseis anos. Setenta e três anos depois, o mesmo governo está publicando, de bandeja, centenas de arquivos — incluindo, supostamente, material nunca antes visto, gravações de astronautas e relatórios de inteligência de agências que normalmente nem confirmam a existência de relatórios — num site de acesso livre, sem necessidade de login, assinatura ou credencial de segurança. Na escala do tempo institucional, isso é uma virada de página e tanto. O endereço, para quem quiser conferir com os próprios olhos, é war.gov/UFO — um domínio que, por si só, já é uma curiosidade: o antigo Departamento de Defesa rebatizado, e agora hospedando uma seção inteira dedicada a discos voadores em forma de batata.

"Desclassificado" não é "explicado": o pé no freio necessário

E aqui é onde a crônica precisa, gentilmente, pisar no freio. "Desclassificar mais de 160 documentos, depois 64, depois 70" não é o mesmo que "explicar 300 mistérios". Documentos desclassificados podem confirmar que um evento aconteceu, sem necessariamente dizer o que ele era. Podem ser autênticos e, ainda assim, descrever exatamente os mesmos tipos de fenômeno que o AARO já havia classificado como "balão", "drone" ou "reflexo" em outros 700 e tantos casos de relatórios anteriores. A quantidade de páginas liberadas não é, por si só, evidência de qualidade ou de novidade do conteúdo — e o próprio aviso oficial que acompanha os arquivos é claro nesse ponto: cada arquivo representa um caso em que os investigadores não conseguiram chegar a uma conclusão definitiva com as evidências disponíveis. Isso é uma afirmação sobre os limites dos dados, não uma confirmação de origem extraordinária. "Não resolvido" não é "alienígena" — é apenas "não resolvido", a mesma palavra que descreve os 701 casos do Blue Book, os 21 do AARO, e agora estes.

Há também a questão, inevitável, do timing político — e aqui vale notar que os parlamentares americanos mais informados sobre o assunto, aqueles que já tiveram acesso a versões classificadas desses mesmos arquivos em audiências fechadas, são justamente os que se mostram mais cautelosos quanto a quão completa é essa liberação. Toda grande desclassificação de arquivos sensíveis acontece dentro de um contexto — e contextos têm motivações que vão muito além da curiosidade astronômica. Isso não significa que o material seja falso ou irrelevante; os vídeos do caso Nimitz, lembre-se, eram genuínos, e levaram anos para virar públicos. Significa apenas que, como em qualquer "vazamento" oficial, vale a pena perguntar não só "o que está aqui dentro", mas "por que isso está sendo aberto agora, em três lotes, espaçados, com coletivas de imprensa — e por quem".

A reação pública aos vídeos da Tranche 3, aliás, foi resumida por mais de uma reportagem com a mesma frase — tirada do próprio áudio de um dos registros, em que um operador de sensor, ao ver o objeto na tela, pergunta ao colega: "Are you seeing this?" ("Você está vendo isso?"). É uma frase perfeita, no sentido de que resume praticamente todos os 21 capítulos anteriores desta categoria de história em quatro palavras — e também imperfeita, porque a resposta, setenta e quatro anos depois de Washington 1952, continua sendo "sim, estamos vendo, e ainda não sabemos o que é".

Do lado científico, o grupo independente de pesquisa sobre UAP da própria NASA — criado em 2022, com astrônomos, físicos e até um ex-astronauta entre seus membros — tem reforçado, lote após lote, a mesma mensagem que abriu este parágrafo: a ausência de explicação não é evidência de explicação extraordinária. É um convite à pesquisa, não uma resposta. Trata-se, em essência, da mesma "regra de ouro" que guia esta série inteira — não levar nenhum dos dois lados a sério demais, e levar o leitor muito a sério. A diferença é que, agora, é a própria NASA quem está repetindo essa regra, em comunicados oficiais, lote após lote de documentos.

Vale também colocar a escala em perspectiva: o próprio governo já indicou que o universo total de registros que podem se encaixar no mandato do PURSUE potencialmente envolve dezenas de milhões de documentos espalhados por décadas de arquivos de múltiplas agências. Se isso for verdade — e não há motivo óbvio para duvidar da ordem de grandeza, dado o tamanho do aparato de inteligência americano ao longo de oito décadas —, então três lotes somando pouco menos de 300 arquivos representam, proporcionalmente, uma fração que caberia tranquilamente na categoria "ainda não chegamos nem perto da primeira casa decimal". A "abertura do cofre" pode ser genuína e, ainda assim, ser apenas a fresta da porta.

Dezenas de milhões de arquivos: o cofre é só uma fresta da porta

A promessa de PURSUE é sedutora justamente porque ecoa, ponto por ponto, todas as promessas anteriores: esta vez é diferente, esta vez é tudo, esta vez vai ter resposta. Pode ser — e, ao menos em volume e velocidade, esta liberação já superou qualquer coisa que o Painel Robertson ou o Project Blue Book jamais imaginaram fazer voluntariamente. Mas se a história deste arquivo até aqui ensinou alguma coisa, é que "o cofre foi aberto" e "o mistério foi resolvido" são duas frases que raramente aparecem na mesma manchete — e, quando aparecem, normalmente é para vender alguma coisa. O que resta, por enquanto, são orbes vermelhos sobre o nordeste americano, uma batata sobre as Montanhas Cheyenne, um disco sobre Harare, e a mesma pergunta de sempre, agora com um endereço de site oficial: o que fazemos com aquilo que, mesmo à luz do dia, continua sem explicação?

Talvez a resposta mais honesta seja a mais desconfortável: nada, por enquanto. Não porque ninguém se importe, mas porque "abrir o arquivo" e "fechar o caso" são processos que operam em velocidades completamente diferentes — um é decisão política, o outro é trabalho de laboratório, de comparação de dados, de análise lenta e sem manchete. Os 21 casos do AARO já estavam, em essência, abertos antes do PURSUE existir. O que o PURSUE adiciona não é necessariamente resposta — é volume, é contexto histórico, é a possibilidade remota de que, entre centenas de novos arquivos, algum pesquisador encontre o dado que faltava para fechar um dos 701 casos do Blue Book, ou um dos 21 do AARO, ou um dos novos "orbes" de 2024. Se isso vai acontecer em 2026, em 2027, ou nunca, é exatamente o tipo de pergunta que esta série vai continuar acompanhando — uma tranche por vez.

Fontes


Fontes: cobertura do lançamento PURSUE (Tranches 1, 2 e 3, maio e junho de 2026) por CNN, NBC News, CBS News, Vision Times, Newsweek, Washington Times e LawStreet, com base em material publicado pelo Departamento de Guerra dos EUA em war.gov/UFO.